Blocos Afro e "bons trabalhos" na Bahia
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Fotografias por Phillip Wagner / Photographs by Phillip Wagner
Blocos Afro e "bons trabalhos" na Bahia
Em janeiro de 1998 eu fiz minha terceira viagem ao Brasil, quando
conheci pessoalmente os diretores de três muito boas organizações que prestam
assistência aos brasileiros desprivilegiados em Salvador, Bahia. Cada uma destas
organizações é associada a um "Bloco Afro" na Bahia.
Os Blocos Afro Brasileiros na Bahia são organizações comunitárias que representam a personalidade e encaminham as necessidades daqueles que lá vivem. A ênfase dos blocos aqui apresentados é estritamente a de "auto-ajuda" e "auto-sustentação". Estes blocos são dignos de qualquer genuíno oferecimento de assistência que venha auxiliar as pessoas de cada bairro a ajudarem-se mutuamente.
O povo brasileiro, como em todo o mundo, está frustrado com a incapacidade de seu governo de efetivamente encaminhar seus problemas sociais. Assim, os blocos deram um passo a frente no estabelecimento de programas sociais inovadores e significantes dentro de seus próprios bairros. Estes programas são traçados e implementados por moradores, dentro de suas respectivas comunidades, com assistência de pessoas residentes do bairro ou não, mas que desejam oferecer alguma necessária ajuda profissional.
Os blocos desenvolveram-se de um tal modo que são freqüentemente
liderados por maestros. Cada bloco tem um grupo que executa músicas que são unicamente
associada àquele bloco. As cores das vestimentas e dos instrumentos dos músicos, o tipo
de instrumentos usados, os ritmos de suas músicas e a maneira de se apresentar ao
público são específicos de cada bloco.
Os blocos cresceram com o carnaval porque os grupos musicais dos bairros sempre competiram uns com os outros.
Enquanto os problemas sociais do Brasil crescem incontrolavelmente, personalidades como Carlinhos Brown, Neguinho do Samba e Vovô do Ilê Aiyê promoveram a idéia de que os artistas devem liderar esforços para melhorar a vida em suas próprias comunidades.
Carlinhos Brown é um verdadeiro superstar da música brasileira. Brown dá vida à idéia da "revolução elegante" para construir uma sociedade mais cooperativa. Ele acredita que as pessoas de todas as raças deveriam trabalhar juntas para resolver os grandes problemas sociais que assolam o Brasil. Ele reconhece que temos lidar com as nossas diferenças, mas insiste em que cada um de nós precisa reconhecer as contribuições do outro em nossa sociedade.
Há quatro grupos de música associados a Carlinhos Brown. "Jair", que é liderado por um garoto de 18 anos, loiro - refletindo assim sua filosofia sincretista (?). "O Zarabe" é composto por mais de 200 homens. Brown estabeleceu esta orquestra primitiva de percussão muito especial para mostrar como pessoas sem recursos, se bem organizadas, podem repentinamente aparecer nas ruas para uma "revolução do som" e, exatamente como apareceram, desaparecer de novo. Isto é exatamente o que ele fazem durante o carnaval. Ninguém sabe quando eles aparecerão no meio da multidão para cantar, dançar e tocar instrumentos. Nem quando vão sumir, como se nunca houvessem existido...
Alguns membros de "O Zarabe" tocam clarins, um trompete primitivo sem válvulas.
"Timbalada" foi um nome originado do "timbau", um tambor cônico. Carlinhos Brown é famoso também por ter feito melhoramentos neste tipo de tambor e um fabricante norte-americano está atualmente negociando produzi-lo sob seu nome. Outro grupo associado a Carlinhos Brown e à Timbalada é o "Lactomia", um grupo de adolescentes que trabalha com um material distinto dos outros.
Neguinho do Samba (Antônio Luiz Alves de Souza) sempre esteve ligado, uma vez ou outra, a todos os Blocos Afro que existiram em Salvador, Bahia, mesmo nos chamados Blocos de Índio (que na verdade tocam música afro). Seu pai era tocador de "bongô" e sua mãe era lavadeira. Desde cedo, Neguinho treinava percussão tocando nas bacias de alumínio de sua mãe.
Neguinho trabalhou por muitos anos como eletricista, ferreiro e camelô. Durante todo este tempo tocava ritmos que são tão costumeiros em Salvador como é a prática do basquete em Indiana, nos Estados Unidos. Os tambores industrializados não eram muito baratos para os que tinham poucos recursos para adquiri-los. Neguinho se deu conta de que eles próprios poderiam fazer aqueles tambores que a comunidade pobre de Salvador não tinha condições de comprar. Ferros de construção provaram ser ideais como suportes na parte exterior dos tambores. E metal usado para fazer grades de janela poderia ser usado para formar aros de 13 polegadas que segurariam os suportes na parte superior e inferior de cada tambor. Neguinho descobriu que o tambor de cinco suportes era muito bom para o samba. Mas o de oito apoios era melhor para o tipo de música tocada pela Timbalada.
Neguinho criou uma organização que desenvolveu um processo de fabricação de tambores na oficina de seu pai. Assegurou a participação de ferreiros na organização. E convenceu aos fabricantes de grades a doarem grades cortadas e soldadas no formato de aros de 13 polegadas completos com parafusos e porcas por onde as hastes poderiam ser seguras.
A disponibilidade de tambores mais baratos contribuiu para a regeneração do mais importante bairro histórico de Salvador: Pelourinho. Há vinte anos atrás o Pelourinho era refúgio de traficantes de drogas, cafetões, prostitutas e pequenos ladrões. Era uma das mais perigosas áreas de Salvador. Hoje o Pelourinho é uma próspera Meca turística que foi transformada em parte graças aos blocos afro e seus grupos musicais a partir do momento em que estes concederam a devida importância à auto-disciplina, aumentaram a auto-estima e promoveram a educação de seus associados. O mais notável destes grupos, embora não sendo o primeiro, é o mundialmente famoso Olodum, foi formado em 1979 e já tocou junto a David Byrne, Paul Simon e Michael Jackson. O Olodum tocou também no Indiana University Lotus Festival no outono de 1997.
Nos anos 70, Neguinho, que mais tarde se tornaria maestro do Olodum, foi maestro do Ilê Aiyê, que é liderado por Vovô (que é desde o início o líder do Ilê e no bairro do Curuzu/Liberdade). Neguinho sempre pensava em colocar suas próprias idéias musicais dentro do Ilê. Ele se deu conta de que cada bloco ou escola de música deveria ser único. Distinguiu então o primeiro ritmo que identificaria o Ilê. Este ritmo veio a ele enquanto pensava nas pessoas associadas ao Ilê e à "mãe" do Ilê (mãe de Vovô e mãe-de-santo do terreiro de candomblé mais famoso do bairro). Este ritmo lembrava o tempo da escravidão, do trabalho duro dos escravos ao processarem as fibras de sisal. Também lembrava o Candomblé, que é a forma com que a religião africana sobreviveu, disfarçada de Catolicismo. Ele pode ver através dos movimentos das pessoas do Ilê que este ritmo se ajustava perfeitamente a elas e que estas poderiam "encontrar " suas próprias identidades no ritmo.
Depois, em 1983, Neguinho ajudou a formar a versão infantil do Olodum e, um ano depois, o Bloco Mirim de crianças. Faltando apenas vinte dias para o Carnaval, quando o Bloco Mirim foi formado, os apelos de Neguinho para as organizações de assistência eram mais propriamente pedidos do que ajuda efetiva. Neguinho trabalhou na organização dos pais das crianças e encorajou-os a assumir responsabilidades com o grupo. Ele perguntou às crianças cujos pais não apareceram: "Seus pais não vão vir? Se não você não poderá participar..." Logo estes pais começaram a aparecer (todos eles!!!), e assim que chegavam recebiam uma camiseta com o nome da banda e participavam do carnaval segurando a corda que envolvia as crianças para protegê-las da multidão. Esta prática é empregada por todos os blocos que participam do Carnaval na Bahia, mas neste caso tem um duplo sentido: é uma barreira física que protege os participantes e a "barreira protetora" dada às crianças por seus pais...
Neguinho do Samba também criou o "Samba-Reggae" em homenagem aos Afro-jamaicanos. Jimmy Cliff veio à Bahia onde tocou com Neguinho. Mais tarde Jimmy Cliff criou uma música para homenagear as pessoas da Bahia. A música de Neguinho do samba foi internacionalmente reconhecida e ele foi recebido no Japão por um multidão portando faixas em seu louvor. A prefeita de Tóquio deu-lhe de presente um prato comemorativo, em reconhecimento a seu trabalho musical.
Também bastante respeitado pelos líderes de blocos afro mais antigos é Antônio Carlos Vovô, presidente do Bloco Ilê Aiyê. Vovô, nome pelo qual é mais conhecido, está auxiliando na determinação da natureza da educação afro-brasileira e é reconhecido pelo governo oficial da cidade de Salvador e Estado da Bahia como um líder que representa verdadeiramente os interesses da comunidade afro-brasileira.
Sob a orientação de Vovô, o Ilê assumiu um crescente e importante papel no grandissíssimo e independente bairro da Liberdade (a "Liberdade", "Libertação" é um tema freqüente nas letras de música deste bloco). Vovô está sempre negociando a participação do Ilê nas organizações cooperadoras envolvendo as governamentais e não-governamentais para assegurar um futuro melhor para jovens afro-brasileiros na Liberdade. Um recente exemplo disto é um programa no qual o Bloco Ilê Aiyê e o Bloco Muzenza participaram, programa este coordenado pela Secretaria do Trabalho e Ação Social do Estado da Bahia, uma firma de consultoria, a DCN e o Liceu de Artes da Bahia, uma escola de capacitação profissional voltada para as artes e que atualmente serve a 160 adolescentes. Sua missão é "divulgar a cultura afro onde os descendentes africanos tenham o desejo e mostrem a capacidade de recuperar sua auto-estima através do prazer e alegria".
O próprio Ilê Aiyê se declara , desde 1989, uma instituição governamental de utilidade pública que não visa lucros.
Um primeiro objetivo de Vovô e do Ilê Aiyê foi o de documentar e fornecer um currículo educacional que oferecesse instrução baseada na perspectiva histórica africana ao invés da européia. Este redirecionamento de foco histórico dá à avassaladora população afro de Salvador - estimada em 80% - uma mais significante perspectiva, relacionada mais diretamente com suas próprias vidas.
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Afro Blocos and "good works" in Bahia
Special Note: The following text details one facet of the emergence of the Afro-Bloco movement in the city of Salvador in Bahia, Brazil. I favor this story for several reasons, but would prefer you keep an open mind. Toward that end I encourage you to also consider the work of Vovô and Ilê Aiyê, which have also been significantly responsible for the birth and growth of this movement. See the Ilê Aiyê gallery for more information.
In January of 1998 I made my third trip to Brasil, where I met personally with the directors for three very well organized efforts to assist marginalized Brasileiros in Salvador, Bahia. Each of these efforts is associated with a "bloco" in the Afro Bloco movement of Bahia.
Brasilian Afro Blocos in Bahia are community organizations which represent the personality, and address the needs of, the residents who live there. The emphasis of the blocos identified here is strictly "self help and self reliance". These "good works" are worthy of any genuine offer of assistance which will help the people of their districts to help themselves, but which does not expect something in return.
Brasilians, like people everywhere, are frustrated by the failure of their government to effectively address social problems. The blocos have stepped forward to establish innovative, meaningful social programs within their own districts. These programs are designed and implemented by residents within their respective communities with assistance from people who do not reside in their district(s), who willingly offer some necessary special expertise.
Blocos have evolved in such a way that they are frequently led by music maestros. Each bloco has a musical group which performs music which is uniquely identified with that bloco. The colors of the performers clothing and instruments, the type of instruments, the rhythms of their music, and the performances are specific to each bloco. The bloco movement grew along with Carnival because district musical groups have traditionally competed with one another at that time. As social problems in Brasil grew out of control famous music personalities like Carlinhos Brown, Neguinho do Samba and Vovo of Ile Aiye have promoted the idea that performing artists should lead efforts to improve life within their own communities.
Carlinhos Brown is a true superstar of Brasilian music. Brown promotes the idea of an "elegant revolution" to build a more cooperative society. He believes that people of all races should work together to resolve the great social problems facing Brasil. He recognizes that we have to deal with our differences, but asserts that each of us must recognize what others contribute to society.
There are 4 music groups associated with Carlinhos Brown. "Jair", which is led by an 18 year old with blonde hair, reflects his syncratic philosophy. "O Zarabe" is composed of more than 200 men. Brown established this very unique primitive percussion orchestra to show how poor people, if well organized, could very suddenly appear in the street for a "revolution in sound", and then just as suddenly disappear again. And that is exactly what they do during Carnival. No one knows when they will appear among the huge crowds to sing, dance and play their instruments. And then they vanish, as if never there.
Some O Zarabe members play "clarines", a form of primitive natural trumpet with no valves.
"Timbalada" is named after the "Timbau", a conical drum. Carlinhos Brown is very famous for making improvements to this kind of drum and a US manufacturer is currently negotiating to produce it under his name. "Lactomia" is a group of teenagers associated with Timbalada, but working with different materials.
Neguinho do Samba (Antonio Luiz Alves de Souza) has been associated, at
one time or another, with every Afro Bloco which has ever existed in Salvador, Bahia and
even in the native Indian bloco (which has an Afro sound). His father played the bongo
drums and his mother was a laundry woman. He was soon tapping out rhythms on his mother's
metal wash bowl.
Neguinho worked for years as an electrician, an iron worker and a street peddler. All the while tapping rhythms, which is as customary in Salvador as practicing basketball is in Indiana in the United States. Real drums are not affordable for the poor in Bahia but, as an iron worker, Neguinho realized that the drums which his poor community in Salvador could not afford to buy for Carnival could be made within the community. Iron rods, used in construction, proved to be ideal as struts on the outside of the drums. And scrap metal could be used to form 13 inch rings to secure the struts at the top and bottom of each drum.
Neguinho discovered that a drum with 5 struts was good for samba but a drum with 8 struts was best for the music performed by Timbalada.
Neguinho created an organization which developed a process for building drums in his father's workshop. He secured participation from iron workers. And he convinced scrap metal dealers to cut and soder the scrap metal they were donating into the 13 inch rings, complete with nuts through which the rods could be secured.
The availability of affordable drums contributed to the regeneration of Salvador's most historic district - Pelourinho. Twenty years ago Pelourinho was ruled by drug dealers, those expliting prostitution and petty criminals. It was one of the most dangerous areas of Salvador. Today Pelourinho is a thriving tourist mecca which has been transformed in large part by the work of African blocos and their musical groups which have imparted the importance of self discipline, enhanced pride and promoted education. Most notable among these groups, though not the first, is the world famous Olodum which was formed in 1979 and has performed backup for David Byrne, Paul Simon and Michael Jackson. Olodum performed at the Indiana University Lotus Festival in the autumn of 1997.
In the 1970s Neguinho, who would later become maestre of Olodum, was Maestre of Ile Aiye, which is led by Vovo ( who is and ever was the leader of Yle and the district of Curuzu/Liberdade). From the outset he began to put his own musical ideas into Ile Aiye. He began to think that each bloco, or music school, was intended to be unique. He devised the first rhythm uniquely identified with Ile. This rhythm came to him as he thought about the people associated with Ile and the "mother" of Ile (Vovô's mother and "mother-of saint" of one of the most famous Candomblé on that district). This rhythm reminded him of the time of slavery and the hard work of slaves to create "sisal" fibers. It also reminded him of Candomble, which is the form that Afro religion has taken behind the facade of Catholicism. He could see from the movements of these (Ile) people that they "fit" with this rhythm so they could "find" their own identities in the rhythm.
In 1983 Neguinho helped to form the children's version of Olodum and, in a later year, the all children's bloco Mirim. There were only 20 days before Carnival when Mirim was formed and Neguinho's appeals to other organizations for assistance were met more with demands than offers of assistance. Neguinho worked to organize the parents of the children and encouraged them to assume responsibilities for the group. He asked the street children whose parents were not there "won't your parents come? If not you will not participate . . . ". Soon these parents began to appear (all of them!!!), and as they appeared they received a t-shirt with the name of the "banda" and participated in the Carnival by holding a rope in a circle around the children to protect them from the crowds. This practice is employed by all of the blocos that participate in Carnival in Bahia, but in this case their was a dual meaning to it: a physical barrier to protect the participants and the protective barrier provided the children by their parents...
Neguinho do Samba also created "Samba Reggae" to honor the Afro peoples of Jamaica. Jimmy Cliff came to Bahia where he performed with Neguinho. Jimmy Cliff later created a sound to honor the people of Bahia. The music of Neguinho do Samba gained international recognition and he was greeted in Japan by large crowds with great banners. The mayor of Tokyo presented him with a commemorative plate.
So respected among the long time leaders of the Afro Bloco movement is
Antonio Carlos Vovo, president of Bloco Ile Aiye. Vovo, or "grandfather" as he
is now known, is helping to determine the nature of Afro Brasilian education and is
recognized by government officials in the city of Salvador and the state of Bahia as a
leader who represents the interests of the Afro Brasilian community.
Under "grandfather's" guidance Ile Aiye has assumed an increasingly prominant role in the very large and independent district of Liberdade. "Liberdade" is the Portuguese word for "liberty", or "freedom", and is a frequent theme in the music of the district. Vovo has successfully negotiated Ile Aiye participation in coooperative efforts involving both governmental and non governmental agencies to secure a better future for young Afro Brasilians in Liberdade. A recent example of this is a program in which the Ile Aiye and Muzenza Blocos have joined in a coordinated program with the office of the Secretary of Work and Social Action for the state of Bahia, a consulting firm called "DCN" and Liceu, an arts oriented trade school currently serving 160 teenagers. Their mission statement is to "spread the Afro culture where African descendants have the will, and show the capacity, to redeem their self esteem with pleasure and happiness". Ile Aiye itself was declared a non profit non governmental "public utility" in 1989.
A primary focus of Vovo and Ile Aiye has been to document and offer up an educational curriculum which offers instruction based on an African, rather than on a European, historical perspective. This redirected historical focus offers the overwhelming Afro population base of Salvador and Bahia, estimated to be 80%, a more meaningful perspective which relates more directly to their own lives.
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Last updated: 02/20/04
Copyright 1998 Philip Wagner